A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A B Pinela

 

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Da amizade

 

Da amizade, diz-se que é um sentimento de amigo, uma afeição recíproca entre duas pessoas, enfim, relações de estima que se estabelecem.

Depois de, no período pré-socrático, se designar por amizade o princípio cosmológico explicativo da composição e da desagregação dos corpos – quer unindo entre si os contrários quer, segundo outras opiniões, juntando os semelhantes –, o termo passou a ser usado apenas no campo das relações entre pessoas.

Identificado umas vezes como o amor, outras dele diversamente diferenciado, pode dizer-se que, do ponto de vista filosófico, a amizade é sobretudo caracterizada pela reciprocidade do afecto – realizando assim uma das mais profundas aspirações do amor –, afecto predominantemente desinteressado e que pressupõe ou origina certa semelhança ou igualdade entre os amigos, levando a uma maior ou menor comunicação de vida

Séneca (cerca de ano 4 a.C. – 65 d.C.), filósofo, escritor e político romano, escreve (in Cartas a Lucílio), "nada é mais agradável à alma de que uma amizade terna e fiel". É bom, diz ele, «encontrarmos corações atenciosos, aos quais podes confiar todos os teus segredos sem perigo, cujas consciências receias menos do que a tua, cujas palavras suavizam as tuas inquietações, cujos conselhos facilitam as tuas decisões, cuja alegria dissipa a tua tristeza, cuja simples aparição te deixe radiante!”»

Acreditamos que sim, que é bom, que é reconfortante contar com a amizade terna e fiel. Quantas vezes não precisamos de partilhar, com alguém que saiba ouvir, o que afecta a nossa tranquilidade! Mas, esclareça-se, que saber ouvir não significa estar sempre de acordo com o que é dito, e que se é capaz de dizer aquilo que se pensa da situação, com cautela sim, mas sem falsidades.

É verdade que todos gostamos que as palavras amigas venham um pouco ao encontro do que precisamos de ouvir, mesmo que, de todo, sejam coisas falaciosas. Será isto correcto? Em que nos ajuda o nosso amigo que assim procede?

«Persuadamo-nos bem de que não há defeito maior na amizade que a lisonja, a adulação, as baixas complacências.» Assim, poder-se-ia «dar bastantes nomes ao vício desses homens frívolos e enganadores, que falam sempre para agradar, e jamais para dizer a verdade.» Ora, «a dissimulação é funesta em todas as coisas (pois corrompe e altera em nós o sentimento de verdade) mas é, sobretudo, contrária à amizade. Destrói a sinceridade, sem a qual não subsiste mesmo o próprio nome amizade.» (cf. Catas a Lucílio).

Cícero (106 – 43 a.C.), escritor e político romano, já alertava, naquele tempo, para o facto de que nada há de mais mutável, de mais versátil que a alma daquele que se transforma, não apenas segundo o sentimento e a vontade dum outro, mas a um pequeno sinal, a um gesto seu. «Ele diz não? Eu digo não; ele diz sim? Eu digo sim: numa palavra, eu me impus a obrigação de tudo aplaudir.» No entanto, continua Cícero, «com atenção, pode-se distinguir o verdadeiro amigo do lisonjeador, tão facilmente quanto se distinguem as coisas fantasiadas e artificiais das que são naturais e verdadeiras.» (cf. Cícero, in Diálogo sobre a Amizade).

Para fechar este texto, recorri ao meu arquivo dos anos 90, onde encontrei um excelente texto de Fernando Gil (1937-2006), professor, investigador e filósofo português, do qual incluo este excerto: «Da amizade diz Aristóteles muitas coisas. Entre elas diz que a amizade se realiza por uma comunidade, uma vida em comum, na base de uma afinidade partilhada. Uns reúnem-se para beber, outros para jogar aos dados, outros ainda para fazer ginástica ou para caçar, ou também, porque não, para estudar filosofia. E diz também que os amigos não podem ser muitos. Porque passam a vida juntos, terão de ser todos amigos de todos, amigos dos amigos de cada um. Ora isso será complicado se eles forem demasiadamente numerosos. Mas há complicação porque a amizade não é concebível se não for transitiva.

É difícil ler estas passagens sem um sentimento de nostalgia por este mundo em que a consciência da existência do amigo se actualiza, como Aristóteles diz também, na vida em comum, e em que a amizade seria por definição transitiva. É-nos dado viver a amizade segundo outros modos. A nossa afirmação individual, em nome da liberdade que nos constitui, torna improváveis comunidades não efémeras de jogadores de dados ou de filósofos. A política tenderá a desfazer a amizade mais do que a confirmá-la e amplificá-la. E, menos do que a transitividade, pensaremos nas amizades que se perdem e na ferida que as perdas representam e significam – para sempre» (António Pinela, Reflexões,Julho de 2007).

 
 

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Última actualização: 14/06/17