A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A B Pinela

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A liberdade como característica do comportamento livre

 

Ao contrário dos processos naturais, ou necessários, e das acções que resultam da coacção e da violência, as acções humanas consideradas livres são intencionais, visam determinado fim, têm um motivo que as explica e incluem num projecto, bem como a decisão de um agente responsável. A intencionalidade é a característica fundamental do comportamento consciente e livre. A circunstância de ter feito, estar a fazer ou pretender fazer alguma coisa intencionalmente define a liberdade e a responsabilidade da conduta humana. Quando alguém prejudica outrem sem a intenção de o fazer, mas por acidente, não lhe causa dano livremente e por esse dano não é responsável.

A intencionalidade, por sua vez, implica, desde logo, o motivo, ou a razão de ser da acção e da sua finalidade. A acção é livre quando é capaz de justificar-se, de apresentar o seu fundamento ou razão, esclarecendo os motivos que a estimularam.

A razão de ser, ou motivo, que explica o acto livre, não é, porém, de modo algum, comparável à causa que provoca os fenómenos naturais. Os antecedentes das acções humanas só as determinam na medida em que a própria liberdade, interpretando-os desta ou daquela maneira, os converte em motivos ou razões. Se tais motivos ou razões, enquanto antecedentes, condicionassem necessariamente os actos humanos subsequentes, o comportamento humano não seria livre mas determinado.

A indicação do fim corresponde ao sentido da acção. O homem, como diz Hegel, é aquilo que faz de si mesmo, a série de seus actos. O que articula tais actos numa série coerente e ordenada, dando-lhes sentido, é o fim que pressupõem e que continuamente os liga uns aos outros.

Saber o que é uma pessoa é saber o que ela faz, e saber o que faz é conhecer o fim que se propõe alcançar ou realizar por meio daquilo que faz. A consciência prévia do fim, ou da causa final, como diz Aristóteles, é a condição de possibilidade da acção livre, enquanto acção que transcende o real, ou o dado imediato, para o converter num meio ao serviço da consecução do fim. Assim, por exemplo, é o objecto da ciência que determina o método e não o método que determina o objecto e, se para observar os astros utilizamos o telescópio, para analisar os micro-organismos empregamos o microscópio.

A noção de projecto implícita as noções de intenção e de finalidade, corresponde à estrutura prospectiva ou antecipadora da conduta humana. As três dimensões de tempo (passado, presente e futuro) correspondem, na nossa consciência, a memória, a percepção e a preocupação. Porque é livre e não determinado, o homem acha-se compelido a projectar a sua vida, a vivê-Ia antecipadamente, na forma de projecto, antes de vivê-Ia efectivamente, como realização do projecto. Fruto da imaginação criadora, o projecto constitui a dimensão poiética, no sentido etimológico, da existência humana, pois a capacidade de projectar o futuro coincide com a capacidade de transcender o real, negando-o inicialmente, pela imaginação e, em seguida, efectivamente, pelo trabalho. Imersa no tempo, ou na temporalidade, a consciência humana é estruturalmente prospectiva, ou projectiva, e é livre na proporção em que inventa a própria vida. A concepção do homem como projecto, já formulada na filosofia de Fichte, e implícita na teoria da praxis, foi retomada pela moderna filosofia da existência que, salientando a importância da imaginação criadora, identifica o homem com a sua liberdade.

O comportamento livre implica, finalmente, a decisão e o agente responsável. Se os motivos da acção jamais podem ser totalmente determinantes, a indicação do fim, a intenção de o realizar, a elaboração do projecto e a escolha dos meios adequados à sua efectivação, dependem da iniciativa do sujeito que, ao decidir-se, assume, ao mesmo tempo, a responsabilidade pela sua decisão. Ao reconhecer-se responsável pelos actos que pratica, o sujeito reconhece-se, também, como agente livre ou causa de tais actos, excluindo-os, consequentemente, do domínio da natureza ou da necessidade (António A. B. Pinela, Reflexões, Outubro de 2006).

 
 

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Última actualização: 19/01/18

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