A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A. B. Pinela

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Liberdade implica responsabilidade

 

A vida humana (não a vida biológica) é vida construída, que se faz todos os dias. É uma tarefa. A vida animal tem todos os mecanismos de regulação – o sistema de instintos. Os instintos no homem são muito limitados. Em compensação, o homem tem a faculdade da imaginação, o poder mental de descobrir horizontes, a capacidade de projectar o seu percurso, de se projectar, como diria Sartre. É este pormenor que permite distinguir o que o homem é e quem é. Este simples enunciado faz a diferença.

O que o homem é procede de seus pais, avós, antepassados e dos elementos que integram o cosmos (oxigénio, hidrogénio, carbono…). Quem é o homem procede da educação, formação, cultura, hábitos, usos e costumes em que cresceu e se desenvolveu. Ora, desprovido de um sistema de instintos que regule a sua praxis, o homem decide, em cada momento da sua vida de acção, o que fazer. Com efeito, tem que optar entre múltiplas possibilidades que se lhe apresentam. A opção é um acto livre.

Se, como dizia Karl Jaspers, «o homem é um ser a caminho», é naturalmente um ser livre, como dizia Jean-Paul Sartre. Portanto, se o homem é um ser naturalmente livre, poderá renunciar à sua liberdade? Obviamente, que não.

Vejamos: se me predisponho a aceitar ou a fazer o que determinada pessoa, ou grupo, me impõe, não estarei a hipotecar a minha liberdade? É evidente que não, uma vez que decido tal predisposição. É um acto inquestionável da minha liberdade de que não posso renunciar. A liberdade é irrenunciável.

Parece confuso? Não é. Esclareça-se: em tese, digamos que há vários patamares de liberdade. Três exemplos: a) Se a vida profissional de um homem depende de outro homem, a liberdade daquele está limitada aos humores deste. Mas ele pode dizer não a todo o momento e, quando o faz, pratica um acto de liberdade, mas isso pode custar-lhe o emprego. b) O homem pode não ter recursos para a sua subsistência e isso pode fazer com que abdique de parte da sua liberdade, colocando-se à disposição de terceiros. Mas pode dizer não, nem que isso agrave mais a sua situação. c) Pode viver numa situação política que não lhe permita a liberdade de decisão, de expressão, de movimentos. Mas pode dizer não, sofrendo as consequências de tal decisão.

Nos casos indicados, como exemplos, o homem é sempre livre. A todo o momento, ele pode renunciar ao conforto de um bom emprego, pode não aceitar as migalhas oferecidas, pode estar consciente da sua atitude, mesmo que os grilhões do ditador lhe limitem os passos. Portanto, mesmo que, em casos limite, isso lhe custe a própria vida, o homem pode sempre exercer a sua liberdade. Uma coisa é ter liberdade de acção e de movimentos, outra é ser livre. Ao assim pensar estou a exercer uma atitude de liberdade, porque a liberdade é uma atitude, um acto de consciência.

Posso, num certo momento, estar privado da minha liberdade de movimentos, mas tal não significa que eu não seja um homem livre. Estar condenado, calado, ignorar ou não responder não significa estar prisioneiro, concordar ou desconhecer, mas apenas mostra a força bruta que pretende limitar a minha liberdade. Quem me condena, limita a minha acção ou me humilha pode ser menos livre do que eu. Eu posso estar preso numa cadeia e, consciente dos meus actos, sentir-me mais livre que o Juiz que me condenou. Homem livre não é, por certo, aquele que, em determinado momento, detém o poder e que, pela força e autoritarismo, oprime e limita os movimentos, as decisões, o livre arbítrio do outro; homem livre não é aquele que, sob a capa do poder e do saber, de modo ignorante e autoritário, pretende subjugar o outro, limitando-o na sua acção, humilhando-o perante os outros, como ocorre frequentes vezes.

Façam os ditadores o que fizerem, nunca conseguirão apoderar-se do OUTRO, isso é impossível. A liberdade é constitutiva do ser humano, o que faz com que o homem seja um ser responsável. Porque sou livre, sou responsável. A liberdade é um postulado da responsabilidade. Porquanto, ao saber-se responsável, o homem sente que está sujeito ao cumprimento de deveres. Para assumir os deveres inerentes à sua condição e à sua prática, o homem só pode ser livre. Se não fosse livre, como se responsabilizaria pelos seus actos? Do que está dito conclui-se que liberdade e responsabilidade caminham a par, são absolutamente inseparáveis.

Mas ao longo da história, a liberdade tem conhecido muitos adversários. São aqueles que têm temor da liberdade, tanto da sua como da dos outros. Aquele que oprime, mais tarde ou mais cedo, acaba por ser oprimido e alienar a sua própria liberdade. A História está cheia de exemplos. Cada homem só é livre e responsável se o outro também o for, na mesma medida. E a medida é coisa óptima, disse Cleobulo. (António Pinela, Reflexões, Novembro de 2003).

 

 

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