A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A B Pinela

 

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Pensamento convergente versus pensamento divergente

 

«Quem não está connosco está "contra-nosco".» Lembram-se desta frase, que foi pronunciada em Almada, em 1975? Já lá vão cerca de trinta anos. Mas ainda há muita gente que pensa assim! Para estes não pode haver alternativa. Psicologicamente, denomina-se a este modo de pensar, «pensamento convergente».

É um modo de pensamento orientado para a obtenção de uma única resposta a uma situação. O ser pensante, colocado perante um problema, submete-se a instruções rígidas no sentido de encontrar uma única solução. O seu comportamento é conformista, prudente, rigoroso, mas limitado.

Explicitando, toda a forma de pensar, dos diversos actores, obedece à ordem de comando, daquele que, ocasionalmente, lidera o grupo.

Quem se atrever a pensar diferente, mesmo que o seu pensamento enriqueça os pensamentos anteriores, mesmo que tal pensamento seja lúcido e traga mais valia, não poderá ser contemplado, porque isso iria contra os ditames do líder e este sentir-se-ia fragilizado, porque o pensamento vencedor não teria sido o seu. E o chefe tem que ter pensamentos...

Todavia, o pensamento convergente, que parecendo muito objectivo, acaba por encaminhar-se para o unanimismo. Logo, é um pensamento ortodoxo, dogmático, não criativo, autoritário. E, por consequência, os defensores deste tipo de pensar, radicalizam-se, não aceitam o debate e, muito menos, a troca de ideias, porque as suas, mesmo que vazias de conteúdo, são sempre as melhores. É a incapacidade de reconhecer que o outro, por mais humilde que seja a sua posição social ou profissional, pode ter rasgos de elevada reflexão e de produção de ideias. Tais sumidades convencem-se que aos olhos dos outros, mas sobretudo a seus olhos, são a luz que ilumina as trevas! A tais, eu recomendaria uma reflexão sobre a célebre frase que imortalizou Sócrates, o pai da Filosofia: «Só sei que nada sei».

Ao invés do pensamento convergente, proponho o pensamento divergente, pensamento criador, mensurável através da resposta a problemas deste tipo: «Que uso se pode fazer de um Posto Público de Internet?» A pessoa, colocada perante o problema, procura todas as soluções possíveis, não se limitando à conformação de uma solução já experimentada, desenvolve as suas respostas por meio de ensaios e erros, por aproximação experimental.

Mas não termina aqui a sua tarefa. Encontrada a sua resposta, há agora que a confrontar com as demais respostas e aceitar, sem melindres, a melhor solução para o problema em análise. É assim que o conhecimento cresce e os problemas se resolvem. É isto o pensamento divergente.

Pensamento que inova, pensamento aberto, receptivo a aperfeiçoamentos, que não menospreza os contributos seja de quem for, que aproveita as experiências exteriores, o que elas têm de enriquecimento para o objectivo do nosso trabalho. Por que não acolher experiências fundamentadas ao longo de carreiras profissionais? Por que menosprezar o saber de estudo e de experiências feito por pessoas que sabem mais do que nós em determinadas valências e vivências?

Não tenhamos dúvidas, podemos conhecer muito bem determinada matéria, mas, é bom não ignorar, para bem do conhecimento e da resolução das situações, que há sempre alguém que sabe um pouco mais do que nós em determinado assunto específico. É este um princípio essencial da humildade do saber.

António Sérgio (filósofo e ensaísta português) recomendava, na qualidade de aprendiz mais velho, que não fizéssemos uma só leitura, que escutássemos o que os outros têm para dizer, que não menosprezássemos a sabedoria alheia... e, então, decida (António Pinela, Reflexões, Outubro de 2004).

 
 

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Última actualização: 14/06/17